Viés da Confirmação
Sabe quando você lê ou ouve falar de alguma coisa que pode até não ser lógica, mas você acredita? Por exemplo, se dizem que fulano é o maior cantor da atualidade, ou que o chá de tal coisa faz bem pro organismo, ou que o a Terra está aquecendo por causa da devastação humana. Nenhuma dessas afirmações é necessariamente mentira, mas também não temos certeza de que é verdade. Então, como acreditar nelas? Será que devemos estudar profundamente esses dados para que possamos aceitá-los? Ou basta confiarmos na fonte da notícia?
O objetivo do post não é fazer um tratado sobre metodologia de verificação da verdade. É apenas alertar para um fato corriqueiro: o de que nós somos bombardeados por informações imprecisas todos os dias.
Navegando pela Internet, descobri que existe muita gente que pensa assim. E que os gringos conseguiram formular esse pensamento como um conceito: o viés da confirmação.
O viés da confirmação é simplesmente um viés (uma falha) de aceitação de um pensamento sem as devidas provas. Por exemplo, nos casos acima, pode mesmo ser que fulano seja o maior cantor da atualidade, mas sob que critérios? Vendas? Afinação? Interpretação (da música)? Aceitação social? Criatividade? Altura? Peso? Há pesquisa sobre o assunto? Quanto ao chá, o que é fazer bem? Quais as pesquisas? Quais as indicações e contraindicações? Em que dose deve ser tomado? Como deve ser preparado? Sobre o aquecimento da Terra, qual o fluxo causal? Onde estão os dados? As projeções estão baseadas em que conceitos? Eles refletem a verdade?
Na Ciência
O viés da confirmação é um conceito muito importante para a (história da) pesquisa científica, porque o pesquisador precisa basear suas hipóteses na verdade. E verdade é um modelo de aproximação da realidade, não a realidade em si. Não há como a ciência encarar a realidade "de frente". Ela precisa fazer aproximações o tempo todo. Por exemplo, não se pode dizer que já existiu uma esfera no mundo, porque qualquer esfera construída possui imperfeições. O conceito de esfera é o da perfeição. Mas, por aproximação, pode-se chamar as esferas construídas de esferas. A implicação disso é de que o conhecimento científico é aproximado, não uma verdade absoluta.
Casos comuns de erros lógicos (o primeiro é um caso clássico do viés da confirmação):
- Generalizar tendo como amostra apenas um caso: "O Bolsa família não funciona porque o João da Esquina pega o dinheiro dele, gasta todo em cachaça e não quer trabalhar";
- Acreditar em uma suposta autoridade: "Meu tio disse que este rio é limpo";
- Estabelecer relação causal onde não há: "O que você tá fazendo?" "Estou jogando estas migalhas de pão na frente de casa para afugentar os rinocerontes." "Mas aqui não há rinocerontes." "Tá vendo como dá certo?";
- Confundir (ou misturar) causa e efeito: "Não adianta dar Internet para pobres porque eles não sabem usar";
- Acreditar no que "todos" estão dizendo: "Os EUA são uma nação egoísta e arrogante".
A generalização é muito comum quando se discutem práticas humanas. Isso porque dois seres humanos podem se comportar diferentemente na mesma situação. Recebendo um auxílio financeiro do governo podem se acomodar ou podem se tranquilizar e produzir mais. Não temos como ver, a priori, como a maioria se comporta. Então quando em uma conversa duas pessoas argumentam sobre as possíveis reações de toda uma população, as duas podem estar certas. O que importa aqui é a percentagem da população que agirá de uma forma ou de outra.
Outro exemplo é uma notícia de uma pesquisa recente do IPEA. No Brasil, as maiores causas do abandono do estudo pelos jovens são o trabalho para os homens e filhos para as mulheres. Homens trabalham porque precisam, certo? Errado. Na pesquisa, verificou-se que é para manter um status social. Trabalhar significa deixar de ser menino e passar a ser homem: isso é independência. Mulheres engravidam porque não se preveniram, certo? Errado. Segundo a pesquisa, no Brasil, elas planejaram engravidar cedo. Só não conseguiram conciliar as duas coisas.
Para resolver esse tipo de problema é que existe a ciência da antropologia. Eles fazem pesquisas desse tipo o tempo todo. O comportamento humano é mutável. Uma população apresenta o comportamento X diante de uma situação, e outra população apresenta o comportamento Y.
Na ciência, deve-se evitar generalidades sempre quando possível.
No Dia a Dia
No dia a dia, a pesquisa para evitar o viés da confirmação é impraticável. Em plena era do conhecimento, não teríamos como checar todas as informações com as quais temos contato.
Normalmente, as pessoas confrontam o conhecimento novo com o que já tem, de forma intuitiva. Se não conhecem nada do assunto, aceitam passivamente a palavra da autoridade. Além desse saudável exercício, existe outro para a avaliação de uma determinada assertiva, que é confrontar a afirmação com o seu oposto. Por exemplo, no caso hipotético do cantor, pode-se questionar o que ele precisaria fazer para não ser o maior. Quem era o maior antes dele e como perdeu o "cargo". Qual o critério? O que ele canta? Onde faz sucesso? Onde não faz? As respostas e estas perguntas podem ajudar você a categorizar melhor a afirmação genérica inicial. Você pode descobrir, por exemplo, que o cantor é, digamos, o Daniel, e que o critério é estar sendo convidado a todos os programas da Globo para divulgar seu novo CD, além de tocar em grande parte das rádios.
Veja que, quer goste quer não, você já pode categorizar melhor a afirmação. Deixa de ser uma afirmação genérica e passa a ser baseada em critérios e em um tempo específico, para um gosto específico. Se ele deixasse de ir aos programas não seria mais o maior? Se você mudar de estação ele deixa de ser o maior?
Tente fazer o exercício acima para todos aqueles casos de erros lógicos citados acima. Tente fazer o mesmo exercício com exemplos de assuntos novos no seu dia.
O exercício acima ajuda a mitigar a aceitação passiva. No entanto, nem sempre temos a quem fazer questionamento ou mesmo tempo para isso. Na prática, algumas coisas nós engolimos sem questionar. Mas até isso pode ser melhor controlado por nós. Particularmente, sempre fiz um exercício muito interessante quanto à avaliação das minhas crenças. Por conta disso, consigo perceber razoavelmente bem se elas são fruto de mera especulação ou se têm um fundo de lógica intrínseca (ou seja, não poderia ser de outra maneira).
Por exemplo, eu acredito que a ação humana possa devastar o planeta, mas não sei qual ação nem em quanto tempo. Muito menos se hoje estamos sequer perto deste limite. Quando se fala em devastar o planeta, tenho a ideia inicial de que significa descampar para fazer cidades, minas ou outros objetos de uso humano; neste caso, já devastamos uma boa parte. Mas sei também que a ação é necessária conforme a humanidade cresce. Então devastar não é necessariamente ruim. Em 2007, pela primeira vez na história da humanidade, havia tantas pessoas nas cidades quanto nos campos (sempre foi maior a quantidade de pessoas na zona rural). Sei também que, quando falam em devastar, estão referindo-se à "parte que interessa": EUA e Europa. Além disso, existe o uso político das informações, com os democratas (Al Gore e seu livro Uma Verdade Inconveniente) e republicanos americanos defendendo posições opostas. Recentemente, um escândalo envolvendo cientistas defensores da tese do aumento da temperatura global afundou completamente minhas esperanças de esperar obter qualquer dado confiável.
Juntando tudo isso, ainda me preocupo com o clima e a devastação do planeta, mas mais por uma questão de saber que, sem preservação, haverá o inevitável esgotamento dos recursos.
Ou seja, é uma preocupação baseada em preconceitos. Tenho apenas estimativas, não os dados concretos. A diferença é que EU SEI DISSO.


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